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Antônio José Ferreira dos Santos

Premium memorial

Lovingly known as “Seu Tonho”

14 March 1934 — 20 November 2022 · aged 88

Ferroviário e fundador da Unidos de Cavalcanti, mestre da bateria por sessenta anos

Brazil Rio de Janeiro, Brazil Born in Cavalcanti, Rio de Janeiro Resting at Cemitério de Inhaúma, Rio de Janeiro
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About Antônio

Seu Tonho dizia que o samba não nasce no desfile: nasce na quarta-feira à noite, no quintal, quando alguém bate numa lata de goiabada e a rua inteira responde. Foi num quintal assim, em Cavalcanti, no Subúrbio do Rio, que em 1958 ele e o irmão Joaquim, mais vinte vizinhos e um surdo emprestado, fundaram a Unidos de Cavalcanti.

Antônio José Ferreira dos Santos nasceu em Cavalcanti em 1934, filho de uma lavadeira e de um maquinista da Central do Brasil. Estudou até o ginásio e aos dezesseis anos entrou como ajudante de oficina na Estrada de Ferro Central do Brasil, onde trabalhou por mais de trinta anos consertando as locomotivas e os vagões que levavam o subúrbio inteiro ao trabalho. De dia lidava com ferro; de noite, com couro e madeira. Era mestre de bateria, e diziam que ele fazia o surdo falar.

Sob a regência dele, a escola saiu de uma bateria de dezoito homens para uma agremiação de seiscentos componentes, com uma quadra que o próprio Tonho ajudou a levantar, tijolo por tijolo, aos domingos. Compôs três sambas-enredo, nenhum campeão, e se orgulhava de todos mais do que dos títulos que a escola nunca ganhou. Ensinou a bateria mirim a tocar e a respeitar o silêncio entre as batidas, e dezenas de meninos do bairro, hoje músicos, advogados e motoristas de ônibus, lembram dele como o primeiro adulto que lhes disse: “Você tem ritmo.”

Torcedor do Vasco da Gama até o último dia, apaixonado por cafezinho, dominó e história do Brasil, casou-se com Dona Zilda em 1960 e criou dois filhos num sobrado cheio de instrumentos. Nunca faltou à missa de domingo antes do ensaio, porque, dizia, “o samba também precisa de bênção”.

Seu Tonho faleceu em 20 de novembro de 2022, Dia da Consciência Negra, aos oitenta e oito anos, em casa, cercado pela família. Deixa a esposa Zilda, os filhos Rosângela e Wagner, o irmão Joaquim, sete netos e uma bateria inteira que ficou em silêncio por um minuto e depois tocou mais alto do que nunca.

“O samba também precisa de bênção, de silêncio e de gente que escute.”
Faith
Catholic
Place of birth
Cavalcanti, Rio de Janeiro
Resting place
Cemitério de Inhaúma, Rio de Janeiro
Passed away
20 November 2022, Rio de Janeiro

Velório na quadra da escola e sepultamento

Monday, 21 November 2022 at 10:00 UTC

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Quadra da Unidos de Cavalcanti

Cavalcanti, Rio de Janeiro

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Memorial fund

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    “God comfort you all.”

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Life journey

  1. Curso ginasial

    Escola Municipal de Cavalcanti

    1946 – 1950 · Rio de Janeiro

    Aprendeu a fazer contas de cabeça e a tocar de ouvido.

  2. Ajudante de oficina e mecânico ferroviário

    Estrada de Ferro Central do Brasil

    1950 – 1985 · Rio de Janeiro

    Mais de trinta anos mantendo os trens do subúrbio em movimento.

  3. Cofundador e mestre de bateria

    G.R.E.S. Unidos de Cavalcanti

    1958 – 2018 · Rio de Janeiro

    Sessenta anos à frente da bateria da escola que ajudou a criar.

  4. Casamento com Zilda Nunes

    1960 · Rio de Janeiro

    Sessenta e dois anos de casamento, dois filhos e um sobrado cheio de instrumentos.

  5. Professor da bateria mirim

    G.R.E.S. Unidos de Cavalcanti

    1985 – 2020 · Rio de Janeiro

    Ensinou ritmo e respeito a mais de trezentas crianças do bairro.

  6. Moção de Louvor

    Câmara Municipal do Rio de Janeiro

    2012 · Rio de Janeiro

    Pelos serviços prestados à cultura popular do Subúrbio carioca.

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Family & connections

Also remembered on Evermore

Antônio is survived by

  • Zilda Nunes dos Santos· Spouse
  • Rosângela Ferreira dos Santos· Daughter
  • Wagner Ferreira dos Santos· Son
  • Joaquim Ferreira dos Santos· Brother
  • 7 netos· Grandchildren

Tributes & memories

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  • CL

    Colega da oficina da Central do Brasil

    Tonho consertava locomotiva cantando, e juro que ela funcionava melhor. Nas sextas ele trazia um pandeiro e a oficina inteira virava ensaio. O chefe fingia que não via. No fim, até o chefe sambava.

  • PA

    Pároco de Cavalcanti

    Seu Tonho era o homem mais pontual da paróquia: missa às oito, ensaio às dez. Dizia que Deus e o surdo têm em comum a paciência. Que o Senhor o receba com uma bateria completa e um bom cafezinho.

  • LB

    Amigo de infância

    Dividimos o mesmo banco de trem por vinte anos, ele sempre batucando na janela. Quando perguntei por quê, respondeu: “O trem tem um compasso, Luiz. É só escutar.” Hoje, em cada trem que passa por Cavalcanti, eu escuto.

  • JS

    Irmão e cofundador da escola

    Tonho, meu irmão mais velho, você me deu o surdo e o caderno de contas, e eu nunca soube qual dos dois pesava mais. Você dizia que eu cuidava do dinheiro e você do coração. A escola precisa dos dois. Eu fico com o caderno; o coração vai com você.

  • MT

    Ex-aluno da bateria mirim, hoje mestre de bateria

    Eu era um menino que batia em tudo e Seu Tonho me deu uma baqueta e uma regra: escute antes de tocar. Hoje sou mestre de bateria de outra escola, e a primeira coisa que ensino é o que ele me ensinou. A escola perdeu o pai; eu perdi o primeiro professor.

  • DB

    Baiana da escola há quarenta e dois anos

    Seu Tonho me chamou para a ala das baianas em 1980, quando eu achava que não levava jeito. Ele disse: “Quem sabe girar uma saia sabe girar o mundo.” Girei por quarenta e dois anos. Hoje a saia está dobrada, mas o giro continua dentro de mim. Obrigada, Seu Tonho.